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15/03/2018 03:32

As recomendações ergonômicas

Hayrton Rodrigues do Prado Filho

Pode-se dizer que os riscos ergonômicos são quaisquer circunstâncias de trabalho que, por motivos psicológicos ou fisiológicos, causem desconforto ao trabalhador. Isso inclui desde um trabalho realizado em uma posição inadequada, até jornadas muito longas, monotonia e repetitividade nas atividades executadas, ou situações de alto nível de estresse mental.

Para que haja risco ergonômico, não é preciso que o trabalho envolva risco de acidentes graves. Basta haver a possibilidade de o trabalhador ter uma sensação incômoda e desagradável no cumprimento de suas tarefas.

A NBR ISO 11226 de 10/2013 - Ergonomia - Avaliação de posturas estáticas de trabalho estabelece recomendações ergonômicas para diferentes tarefas de trabalho. Fornece informações para aqueles envolvidos no projeto, ou reprojeto, do trabalho, tarefas e produtos que estejam familiarizados com os conceitos básicos de ergonomia, em geral, e de posturas de trabalho, em particular. Especifica os limites recomendados para posturas estáticas de trabalho sem qualquer ou somente um mínimo de esforço, enquanto leva em conta aspectos como ângulos posturais e tempo.

É projetada para fornecer orientações na avaliação das variáveis de diversas tarefas, permitindo que os riscos à saúde da população trabalhadora sejam avaliados. Ela se aplica à população trabalhadora adulta. As recomendações fornecerão proteção razoável para quase todos os adultos saudáveis. As recomendações a respeito de riscos e proteção à saúde estão baseadas principalmente em estudos experimentais com respeito à carga musculoesquelética, ao desconforto/dor, e à resistência/fadiga relacionados às posturas estáticas de trabalho.

Dor, fadiga e distúrbios do sistema musculoesquelético podem ser resultado da manutenção de posturas de trabalho inadequadas, que podem ser causadas por situações de trabalho precárias. Fadiga e dor musculoesquelética podem influenciar o controle postural, o que pode aumentar o risco de erros e pode resultar na redução da qualidade do trabalho ou da produção, e em situações perigosas. Um bom projeto ergonômico é uma necessidade básica para evitar esses efeitos adversos.

Esta norma contém uma abordagem para determinar a aceitabilidade de posturas estáticas de trabalho. O seu conteúdo está baseado no conhecimento ergonômico atual e está sujeito a mudanças de acordo com pesquisas futuras. Esta norma está relacionada às ISO 11228-1, ISO 11228-2 e ISO 11228-3 (ver [1], [2] e [3] na Bibliografia).

Convém que as tarefas e operações de trabalho possibilitem que haja VARIAÇÕES suficientes tanto físicas quanto mentais. Isso significa um trabalho completo, com VARIAÇÃO suficiente de tarefas (por exemplo, um número adequado de tarefas organizacionais, uma combinação apropriada de ciclos de tarefas longos, médios e curtos, e uma distribuição equilibrada de tarefas simples e complexas), autonomia suficiente, oportunidades para interação, informação e aprendizado. Além disso, convém que toda a gama de trabalhadores possivelmente envolvidos com as tarefas e operações seja considerada, em particular as suas medidas corporais.

Com relação às posturas de trabalho, convém que o trabalho ofereça variação sufi ciente entre as posturas sentada, de pé e caminhando. Convém que posturas inadequadas, como ajoelhada e agachada, sejam evitadas, sempre que possível. É ressaltado que não convém que medidas que induzem a variações de postura levem a um trabalho repetitivo e monótono (para mais informações, consultar [4] na Bibliografia).

Como um procedimento de avaliação, a abordagem descrita pode ser utilizada para determinar a aceitabilidade de posturas estáticas de trabalho. O procedimento de avaliação considera vários segmentos corporais e articulações, independentemente, em um ou dois passos.

O primeiro passo considera somente os ângulos corporais (as recomendações estão, principalmente, baseadas nos riscos por sobrecarga das estruturas passivas do corpo, como ligamentos, cartilagens e discos intervertebrais). Uma avaliação pode conduzir para o resultado “aceitável”, “vá para o passo 2” ou “não recomendado”. Um resultado da avaliação “aceitável” significa que uma postura de trabalho é aceitável somente se VARIAÇÕES da postura estão também presentes (ver 3.1).

Em qualquer eventualidade, convém que todo esforço seja feito para obter uma postura de trabalho mais próxima da postura neutra, se isto já não for o caso. O conceito “postura de referência” é utilizado para determinação de posturas de trabalho (ver 3.3). Um resultado da avaliação “vá para o passo 2” significa que a duração da postura de trabalho também precisará ser considerada (recomendações estão baseadas em dados de resistência).

Convém que posições extremas das articulações sejam avaliadas como “não recomendadas”. Somente aquelas posições extremas das articulações que são encontradas mais comumente na prática são mencionadas. Há vários meios para determinar as posturas de trabalho, por exemplo, observação, fotografia/vídeo, sistemas de medição tridimensional óptico-eletrônico ou por ultrassom, dispositivos de mensuração posicionados sobre o corpo, como inclinômetros e goniômetros.

O método apropriado depende, entre outras coisas, da precisão requerida na avaliação. Na maioria dos casos, a observação direta (sem instrumentos/sistemas de medição) será sufi ciente. Contudo, para determinação mais precisa de posturas de trabalho, instrumentos/sistemas de medição podem ser necessários (para um panorama geral e descrição detalhada, ver [5] na Bibliografia).

O Anexo A descreve os procedimentos para determinar parâmetros de postura específicos apresentados em 3.4 a 3.7, ou seja, inclinação do tronco, inclinação da cabeça, flexão/extensão de pescoço, elevação do braço e posições extremas das articulações. As Seções A.2 e A.3 contêm os procedimentos para medição da inclinação do tronco, da inclinação da cabeça e flexão/extensão do pescoço (A.2), e da abdução do segmento superior do braço (A.3).

Estes procedimentos são baseados no uso de fotografia/vídeo (medição bidimensional) e/ou sistemas de medição tridimensional óptico-eletrônico ou por ultrassom. A Seção A.4 contém os procedimentos para se determinar posições extremas da articulação.

Para os procedimentos de medição descritos nas Seções A.2 e A.3, convém que dois pontos sejam marcados em cada segmento do corpo envolvido. Para isto, os seguintes requisitos se aplicam: convém que os pontos estejam relacionados com o segmento do corpo; convém que os pontos sejam detectáveis pelo sistema de medição; não convém que os pontos estejam muito próximos (a fim de reduzir erros de medição).

É muito importante que os mesmos pontos sejam utilizados tanto na medição da postura de referência, quanto na medição da postura durante a execução da tarefa. Pontos específicos são recomendados abaixo com base em experiências anteriores. Contudo, qualquer outro conjunto de pontos pode ser selecionado, desde que os requisitos mencionados acima sejam atendidos.

Dois segmentos do corpo são distinguidos, isto é, o tronco e a cabeça. Cada segmento é definido como uma linha reta que passa por dois pontos no segmento, quando visto pela lateral do segmento (isto é, perpendicularmente ao plano de simetria do segmento). O procedimento se inicia pela marcação de dois pontos no tronco, por exemplo na borda superior do trocanter maior (designado T1) e no processo espinhoso da sétima vértebra cervical (designado T2), juntamente com dois pontos na cabeça, por exemplo, próximo ao lóbulo da orelha (designado H1) e próximo ao canto lateral do olho (designado H2).

Os três passos seguintes são executados para o segmento do tronco, bem como para o segmento da cabeça. O primeiro passo envolve a medição do ângulo entre o eixo vertical e a linha que passa pelo segmento do corpo (T1-T2 para o tronco, H1-H2 para a cabeça) na postura de referência. O segundo passo envolve a medição do ângulo entre o eixo vertical e a linha que passa pelo mesmo segmento (T1-T2 para o tronco, H1-H2 para a cabeça) na postura durante a execução da tarefa.

No terceiro passo, a inclinação do segmento do corpo (designada α para o tronco e β para a cabeça em 3.4 e 3.5, respectivamente) é calculada como a diferença entre o ângulo na postura de referência e o ângulo na postura durante a execução da tarefa. O ângulo entre o eixo vertical e a linha pontilhada T1-T2 na postura de referência é 4° enquanto, o ângulo entre o eixo vertical e linha contínua T1-T2 na postura durante a execução da tarefa é 33°.

Portanto, a inclinação do tronco (designada α em 3.4) é igual a 29° (isto é, 33° - 4°). O ângulo entre o eixo vertical e a linha pontilhada H1-H2 na postura de referência é 71°, enquanto o ângulo entre o eixo vertical e a linha contínua H1-H2 na postura durante a execução da tarefa é 140°. Portanto, a inclinação da cabeça (designada β em 3.5) é igual a 69° (isto é, 140° - 71°). A flexão do pescoço (isto é, a inclinação da cabeça menos a inclinação do tronco, designada β – α em 3.5) é igual a 40° (isto é 69° - 29°).

O procedimento se inicia pela marcação de dois pontos no braço, por exemplo, na articulação acrômioclavicular (designada UA1) e na articulação úmero-radial (designada UA2). O braço é definido como uma linha reta que passa por ambos os pontos. Os três passos seguintes se referem a ângulos reais, isto é, não dependentes da direção de observação durante a medição como em A.2. O primeiro passo envolve a medição do ângulo entre o eixo vertical e a linha que passa pelo braço (UA1-UA2) na postura de referência.

O segundo passo envolve a medição do ângulo entre o eixo vertical e a linha que passa pelo braço (UA1-UA2) na postura durante a execução da tarefa. No terceiro passo, a elevação do braço é calculada como a diferença entre o ângulo na postura de referência e o ângulo na postura durante a execução da tarefa (designado γ em 3.6.1).

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