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Como vencer os modelos paradigmáticos do mercado de acreditação

Com o aumento da concorrência, atualmente existem ameaças reais à atividade de certificação e a sua credibilidade é uma questão que envolve todas as partes interessadas: a ISO, o International Accreditation Forum (IAF), os organismos de acreditação, os organismos de certificação, os auditores e os clientes

DaRedação
As transformações tecnológicas na indústria mundial — que, para muitos estudiosos, constituem as bases de uma terceira revolução industrial — consagram um novo paradigma competitivo em que qualidade de produto, flexibilidade e rapidez de entrega, além da racionalização dos custos de produção, constituem as alavancas básicas da competitividade internacional. No novo mundo competitivo prevalece o trinômio produto customizado/automação flexível microeletrônica/organização polivalente da produção em substituição ao produto estandardizado/automação rígida eletromecânica/organização parcializada da produção. Estas transformações trouxeram diferentes implicações sobre a competição internacional, principalmente quanto à delimitação de novos espaços da concorrência que se tornaram mais internacionalizados e à aceleração do

José Joaquim
José Joaquim: “Algumas organizações buscaram somente ter o certificado sem se preocupar com a gestão”

ritmo de inovação tecnológica, com o encurtamento do ciclo de vida de produtos e processos, e o aumento da diferenciação de produtos. Assim, foram definidos, conseqüentemente, novos critérios para a qualidade industrial. Antes do aparecimento das normas de sistemas de gestão da ISO, na década de 90, existiam muitas normas concorrentes de sistemas de gestão da qualidade, quer ao nível local, nacional, regional e global. Segundo o diretor da Fundação Carlos Alberto Vanzolini; José Joaquim do Amaral

Ferreira, com as normas ISO, foi possível racionalizar essa diversidade e assim contribuir para a diminuição das barreiras ao comércio internacional, bem como aumentar a eficiência para as diversas partes interessadas, (com destaque para os utilizadores) ao permitir a redução de um número significativo de programas da qualidade, para focar a atenção na utilização eficaz e eficiente dos recursos e na obtenção de resultados. Com a finalidade de dar resposta à necessidade de demonstrar, com credibilidade, que as organizações cumprem os requisitos das normas de gestão aplicáveis, apareceram as entidades certificadoras e as entidades acreditadoras que tentam dar credibilidade à atividade das entidades certificadoras verificando sua forma de atuação. Por sua vez, as entidades acreditadoras estabeleceram fóruns internacionais (IAF) para assegurarem a harmonização, o reconhecimento das várias acreditações e consequentemente das certificações, dando origem a um esquema global de certificação e acreditação. As normas de sistemas de gestão da ISO permaneceram
como normas genéricas de aplicação universal, complementadas por normas específicas para setores de atividade e/ou sistemas de gestão provenientes de setores industriais, sendo que a norma ISO 9001:2000, conta com mais de 1 milhão de sistemas de gestão da qualidade certificados em todo o mundo.
No entanto, há que reconhecer que existem ameaças reaisà atividade de certificação. De fato, a sua credibilidade é uma questão que atualmente envolve todas as partes interessadas: a ISO, principalmente para o ISO TC176 e o ISO/Casco, o IAF, os organismos de acreditação, os organismos de certificação, os auditores e os clientes. Uma análise global desta atividade permite identificar as seguintes áreas de preocupação:
• Ameaças comerciais à objetividade e à eficácia da certificação, pois a excessiva concorrência entre organismos de certificação levou a que alguns deles optassem por uma abordagem mais leve, recorrendo, por exemplo, a auditorias de duração muito reduzida, ao relaxamento dos critérios de classificação de não-conformidades eà relutância em rejeitar, suspender ou retirar a certificação;
• A necessidade de assegurar os níveis de competência e experiência dos auditores, proporcionando-lhes o tempo necessário para realizar a auditoria com eficácia e colocando mais ênfase nos resultados dos sistemas de gestão auditados e na comprovação da eficácia real das correções/melhorias e das ações corretivas;
• A necessidade de uma abordagem integrada de cima para baixo, para assegurar a responsabilização (accountability) dos vários intervenientes a todos os níveis e a eliminação de comportamentos e desempenhos indesejáveis ou insatisfatórios, em toda a cadeia de certificação: IAF, organismos de acreditação, organismos de certificação, auditores e empresas certificadas.
Em resumo, há uma tendência global preocupante, onde a excessiva concorrência entre organismos certificadores tem levado a que alguns deles optem por uma abordagem menos rigorosa, recorrendo, por exemplo, a auditorias de menor duração, o que compromete o tempo necessário para uma auditoria de valor agregado e no resultado final da certificação. “No Brasil, no início de todo este processo, as empresas buscavam a certificação por imposição de suas matrizes, adotando um sistema de gestão que agregava valor aos seus processos e não um papel apenas na parede”, explica Amaral Ferreira.“À medida que estas empresas foram se certificando e por um efeito cascata passaram a exigir de seus fornecedores a certificação. Algumas destas organizações buscaram somente ter o certificado sem se preocupar com a gestão. Paralelamente a isso, surgiram um maior número de organismos de certificação que passaram a competir basicamente por preço. Isso diminuiu a qualidade do
produto ou serviço oferecido. E as conseqüências não foram boas para o sistema brasileiro e mundial de certificação, com a diminuição da credibilidade dos processos de acreditação”.
Para o diretor da Vanzolini, todo este panorama gerou o surgimento de certificações setoriais, pelo próprio descrédito que a certificação ISO 9001 passou a causar no mercado. “O setor automotivo criou, a partir do momento que achou que o modelo não servia, a QS 9000 e após isso a ISO TS 16949: depois, o setor aeroespacial especificou suas normas próprias, alimentos, ferroviário, além de normas específicas para a área de tecnologia da informação, responsabilidade social etc. Isso complicou a atuação no mercado de todas as certificadoras exigindo pesados investimentos em acreditação e recursos humanos”.
Para tentar resolver o problema, conforme explica Amaral Ferreira, a Fundação Vanzolini adotou a cooperação regional. “Neste tipo de atuação, o organismo de certificação pode ampliar o seu mercado, pois passa a operar em outros países em determinados escopos. Igualmente, pode haver a especialização em determinadas certificações, ganhando escala em prestação de serviços aos clientes com os seus parceiros. Estamos focados na Argentina, Brasil, Venezuela, Colômbia e México. Nós nos especializamos na parte automotiva, a ISO TS 16949. Conseguimos a acreditação do IATF graças a este foco continental. O pessoal da Argentina se especializou em TL 9000, para a área de telecomunicações. Já os colombianos estão voltados para os mecanismos de crédito de carbono. O México ainda está estudando qual vai ser a especialização a ser escolhida”.
Para o executivo, estas cooperações regionais favorecem a apresentação de projetos de entidades mundiais, tipo Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento. “Um projeto que se encaixa nisso é o de sistemas de gestão para pequenas e médias empresas, junto com os mexicanos e os colombianos. Inclusive na Colômbia já há mais de 1.000 pequenas empresas certificadas. Então, será um projeto continental a ser financiado por um destes bancos. Outra coisa importante é a troca de informações entre os auditores, um verdadeiro intercâmbio entre especialistas. Além disso, há um aumento de rentabilidade entre os organismos participantes, com a diminuição dos custos fixos de acreditação, pois há uma quantidade maior de clientes. O mais vantajoso é que quando se faz este tipo de acordo, sabe-se que os organismos de certificação parceiros não vão tentar atuar sobre os clientes locais já certificados em outro escopo ou norma. A Vanzolini já possui 70 clientes fora do Brasil. Em termos de certificação dos parceiros, quatro empresas brasileiras já possuem o certificado TL 9000. É uma saída possível para a crise do mercado de certificação brasileiro, que está estagnado há muitos anos”, conclui.
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